Conto: A espada de Dâmocles

MDH 6

Dionísio, o Ancião, tirano de Siracusa, organizada festas extraordinárias. Ele ostentava suas riquezas e sua força perante a nobreza do país. Um de seus cortesões, Dâmocles, impressionado com tanto luxo, disse-lhe, um dia, o quanto ele o invejava por ser tão rico e tão poderoso.

– Pois bem. Como você acha tudo isso invejável – retorquiu o tirano -, está disposto a experimentar um pouco e a ver com seus olhos qual é a minha sorte?

Dâmocles, um pouco embriagado, aceitou com alegria. Então, puseram-no num trono de ouro cravado de pedras preciosas, envolveram-no com todos os luxos do rei, banharam-no em perfumes e músicas e serviram as iguarias mais saborosas…Dâmocles nadava em felicidade. No entanto, de repente, quando levantou os olhos, viu que Dionísio havia mandado colocar uma espada afiada acima de sua cabeça, sustentada apenas por um fio de crina de cavalo. Naquele mesmo instante, seus olhos não viram mais o sabor dos quitutes, dos perfumes e da música…

– Então – disse-lhe o tirano – você viu qual é a minha sorte. Está satisfeito?

– Sim – sussurrou  o cortesão.

E correu para deixar aquele palácio tão pouco invejável. Aquele que vive sempre mergulhado no medo não pode deliciar-se com o menor dos prazeres.

Segundo o poeta latino Horácio (Século 1º antes de nossa era)

Filosofando: Se alguém quer o poder, é necessário também aceitar suas consequências. Dâmocles não as aceita de prefere abandonar o lugar… Mas Dionísio, não. Ele as aceita porque reassume o seu papel. O que é que tanto o atrai no exercício do poder? Por que o poder fascina algumas pessoas a ponto de elas sacrificarem tudo por seus encantos?

Beijos Beijos

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Conto: A Palavra

MDH 6

Um dia, um pescador, que veio estender sua rede na praia, encontrou um crânio seco na areia. Querendo brincar, dirigiu-se ao crânio e perguntou:

– Diga uma coisa, Crânio, quem trouxe você até aqui?

Qual não foi sua surpresa, quando ouviu o crânio responder: –

A palavra!

Imediatamente, o pescador correu até a aldeia, entrou na casa de seu rei e contou o acontecido.

– Um crânio que fala! – exclamou o rei. – Você tem certeza do que está me contando?

– Tanta certeza como a de estar diante do senhor e falar com o senhor!

– Cuidado, homem – disse-lhe o rei. – Se você me contou uma besteira, ai de sua cabeça!

E, em solene cortejo, ele foi até a praia para ver aquela maravilha. Quando chegaram diante do crânio, o homem repetiu com uma ponta de orgulho:

– Diga aí, Crânio, quem lhe trouxe até aqui?

Mas, desta vez, nada! Silêncio! O crânio não respondeu. Então o rei puxou a sua espada e decapitou o pescador na hora. Depois, voltou para a aldeia com seu cortejo.

Quando o rei foi embora, o crânio se voltou para a cabeça recém-decepada e perguntou:

– Agora, me diga quem lhe trouxe aqui para perto de mim?

– A palavra – respondeu a cabeça, desiludida.

Conto africano.

Discutindo: A satisfação de tagarelar leva, aqui, á decapitação. É claro que isso é um excesso. Entretanto, como em todos os contos, é preciso que ele transmita uma mensagem simbólica destinada a nos chamar a atenção sobre o perigo de falar sem pensar.

Beijos Beijos

 

Conto: As bruxarias de um alforriado

MDH 6

Um cidadão alforriado tirava de seu pequeno pedaço de terra colheitas mais abundantes do que as de seus vizinhos. Eles, que possuíam terremos bem mais amplos, não conseguiam tirar nem a metade daquilo que o alforriado colhia e viviam atormentados pela inveja. Assim sendo, terminaram acusando o alforriado de fazer passes de mágica e atrair as colheitas para seu campo.

Então o alforriado foi intimado a comparecer perante a justiça de Roma. Temendo ser condenado, ele foi  ao fórum com sua junta de bois em perfeita forma, seus instrumentos agrícolas com as relhas do arado e todas as duas ferramentas de trabalho.

– Romanos – disse ele – , estes são os meus feitiços…pois não posso mostrar a vocês nem trazer até aqui meus cansaços, minhas noites não dormidas e meus suores.

Ele foi absolvido por unanimidade e pôde retomar seu trabalho, tranquilamente.

Plínio, o velho.

Discutindo: O trabalho dos homens e sua vontade são os maiores “passes de mágica”. Eles são capazes dos milagres mais espantosos! Vemos aqui que o trabalho é um valor supremo. Será que, em nossas sociedades ocidentais, ele conservou o mesmo valor? O sucesso está sempre ligado ao trabalho realizado? Se desvalorizamos a noção de trabalho, quais serão as suas consequências?

Beijos Beijos