Conto: Os dois monges e a moça

HL-POESIA

Dois monges zen se preparavam para atravessar um rio a pé, quando deles se aproximou uma linda moça. Ela também queria atravessar, mas tinha medo da violência da correnteza.

Então, um dos monges, sorrindo, colocou-a em seus ombros e a transportou para a outra margem do rio.Seu companheiro o recriminou: uma monge não deve tocar o corpo de uma mulher…E, durante todo a caminho, não abriu a boca. Duas horas mais tarde, quando avistaram o mosteiro, ele avisou em tom de reprovação que ia contar ao mestre o que tinha acontecido:

– O que você fez é vergonhoso e proibido pela nossa regra!

Seu companheiro se espantou:

– O que é vergonhoso? O que é proibido?

– Como assim? Você esqueceu do que fez? Será não se lembra? Você carregou uma linda moça em seus ombros!

– Ah, foi! – lembrou-se o primeiro, rindo. – Você tem razão. Contudo, já faz umas duas boas horas que a deixei na outra margem, ao passo que você continua carregando-a em suas costas!

Conto Zen

Filosofando: O segundo monge não transportou a moça, mas, visivelmente, estava morrendo de ciúme, tanto que não conseguiu esquecer. Se ele não desobedeceu à regra com suas ações, desobedeceu em pensamento, e esse pensamento continuava a martirizá-lo. À sua frustração junta-se ainda o ciúme. Num plano moral, isso não é mais grave? Por outro lado, não há situações em que, para ajudar alguém, driblamos uma regra ou mesmo a lei dos homens?

Beijos Beijos

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Conto: O inferno e o paraíso

MDH 6

Um samurai se apresentou um dia ao mestre  zen Hakuin  e lhe perguntou:

– Existe realmente um inferno e um paraíso? E, se eles existem, onde é que estão as suas portas?

Hakuin o encarou com olhar provocador e perguntou:

– Quem é você para fazer uma pergunta dessas? – Sou um samurai? – replicou o mestre, com uma ponta de desprezo.

– Você mais parece um mendigo.

Vermelho de raiva, o samurai desembainhou sua espada…

– Ah, é ?! Você tem até uma espada? Mas é desajeitado demais para cortar a minha cabeça…

Fora de si, o guerreiro ergueu a espada para ferir o mestre. Mas, naquele instante, Hakuin murmurou:

– Aqui se abrem as portas do inferno.

Perplexo diante da tranquila segurança do monge, o samurai recolocou a espada na bainha e curvou o corpo em sinal de respeito.

– Aqui se abrem as portas do paraíso – disse-lhe, então o mestre.

Conto do mestre zen Hakuin.

Filosofando: Segundo a filosofia zen, o domínio de si mesmo é a própria base de sabedoria. Portanto, todos os excessos, todas as  paixões são  descartadas…E a raiva faz parte disso. No entanto, podemos realmente viver sem excessos nem paixões? Ás vezes, não existem também raivas positivas e encantadoras loucuras? Nossa razão pode controlar tudo?

Beijos Beijos

Conto: A espada de Dâmocles

MDH 6

Dionísio, o Ancião, tirano de Siracusa, organizada festas extraordinárias. Ele ostentava suas riquezas e sua força perante a nobreza do país. Um de seus cortesões, Dâmocles, impressionado com tanto luxo, disse-lhe, um dia, o quanto ele o invejava por ser tão rico e tão poderoso.

– Pois bem. Como você acha tudo isso invejável – retorquiu o tirano -, está disposto a experimentar um pouco e a ver com seus olhos qual é a minha sorte?

Dâmocles, um pouco embriagado, aceitou com alegria. Então, puseram-no num trono de ouro cravado de pedras preciosas, envolveram-no com todos os luxos do rei, banharam-no em perfumes e músicas e serviram as iguarias mais saborosas…Dâmocles nadava em felicidade. No entanto, de repente, quando levantou os olhos, viu que Dionísio havia mandado colocar uma espada afiada acima de sua cabeça, sustentada apenas por um fio de crina de cavalo. Naquele mesmo instante, seus olhos não viram mais o sabor dos quitutes, dos perfumes e da música…

– Então – disse-lhe o tirano – você viu qual é a minha sorte. Está satisfeito?

– Sim – sussurrou  o cortesão.

E correu para deixar aquele palácio tão pouco invejável. Aquele que vive sempre mergulhado no medo não pode deliciar-se com o menor dos prazeres.

Segundo o poeta latino Horácio (Século 1º antes de nossa era)

Filosofando: Se alguém quer o poder, é necessário também aceitar suas consequências. Dâmocles não as aceita de prefere abandonar o lugar… Mas Dionísio, não. Ele as aceita porque reassume o seu papel. O que é que tanto o atrai no exercício do poder? Por que o poder fascina algumas pessoas a ponto de elas sacrificarem tudo por seus encantos?

Beijos Beijos